O Tim Maia é um dos artistas brasileiros que mais admiro. Por seu talento, sua extroversão, por seu carisma e sua originalidade. A música brasileira sente falta hoje de artistas como ele, que falam o que pensam, que sejam originais. Hoje os artistas são um bando de bobocas cantando pra agradar a gravadora.
Finalmente foi lançado o tão esperado livro do Nelson Motta sobre o Tim Maia: LIVRO: Nelson Motta - Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia

Nelson Motta é aplaudido por alguns e visto como oportunista por outros, mas de qualquer forma esteve bem presente na vida artÃstica musical, especialmente nos anos 80.
Conviveu com o Tim Maia e nesse livro muito aguardado ele conta histórias sobre a vida do grande Tim Maia, que faleceu em 1998, aos 55 anos, depois de passar mal no palco onde fazia um show.
A biografia de Tim Maia é complementada por um site ( www.objetiva.com.br/valetudo ) no qual se pode ouvir – mas não baixar – todas as músicas citadas no livro. É uma boa chance de se apreciar os sucessos do compositor e também raridades perdidas de seu repertório.
Frases do Tim Maia: “Fiz uma dieta rigorosa: cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas perdi 14 diasâ€.
“Dos artistas do Rio, metade é preto que acha que é intelectual e metade é intelectual que acha que é pretoâ€.
Trechos do livro: Qual o preço que está sendo vendido o livro Nelson Motta - Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia
Aos 12 anos, Sebastião Rodrigues Maia, que se tornaria o Tim Maia, mais novo de 12 irmãos, ajudava a famÃlia entregando em casas do bairro da Tijuca a comida preparada na pensão de seu pai.
Carregando duas pilhas de marmitas penduradas nas pontas de uma vara atravessada sobre os ombros, como um pescador chinês de carnaval, Tião percorria as ruas da Tijuca sob o sol escaldante do meio-dia, quando os outros três moleques que ajudavam na pensão não davam conta das entregas. (…) Tião se arrastava pela Tijuca com seus sapatos dois números maior – que Dona Maria comprava para durar mais – quando passou por uma pracinha de terra onde um bando de garotos descalços jogava futebol com uma bola de borracha. “Entra aÃ, Tiãoâ€, gritou Erasmo, um menino da mesma idade, moreno e grandalhão. (…) Tião baixou as marmitas e sentou num banco à sombra de uma árvore. Tirou a camisa, enxugou o suor do rosto e da barriga roliça e, quando se preparava para adentrar o terreno, teve uma idéia melhor. Abriu as marmitas e comeu um pedaço de frango de uma, um croquete de outra, um bifinho de panela aqui, algumas batatas fritas ali, e fechou com pedaços de goiabada e queijo, tirados de três marmitas. Ao mesmo tempo Tião aliviava a fome e o peso das marmitas.
Aos 16 anos, Tim Maia conseguiu um bilhete aéreo barato para os Estados Unidos, numa excursão de padres. Chegou a Nova York com 12 dólares no bolso
O inverno estava chegando, o frio e o vento cortavam. Nova York congelava. Com três amigos, decidiu correr atrás do sol e do calor. Num carro roubado, fazendo pequenos furtos em uma cidade e vendendo em outra, cruzaram o paÃs e passaram por nove estados. (…) A viagem foi marcada por muitas garrafas, incontáveis baseados e cinco prisões, três ligeiras, por brigas, desacatos e bebedeiras, e uma de dez dias, por roubo de gasolina em um posto. E terminou mal, na penitenciária agrÃcola de Daytona, na Flórida, onde os quatro foram trancafiados depois de presos pela polÃcia rodoviária e condenados pelo juiz por “felonious possession of illegal substances and car theftâ€, com a perspectiva de uma longa etapa atrás das grades, ou pior: era a quinta anotação no seu criminal record. (…) Ninguém lhe dizia nada, lhe deram um advogado que não fazia nada, se preparava para o pior. E, na Flórida, o pior era a cadeira elétrica, tremia de pensar. Depois de um inverno infernal, mourejando nas plantações de sol a sol, como um escravo de … E o Vento Levou, um dia o carcereiro gritou Maia, e Tim tremeu. Acompanhou-o até a sala do diretor como um prisioneiro que vai para o corredor da morte. Mas não foi mandado para a cadeira elétrica, apenas deportado para o Brasil.
Um E.T. na Jovem Guarda
Quando finalmente Roberto Carlos convidou Tim Maia para cantar no programa Jovem Guarda, o público não entendeu nada de sua música
Tinha certeza absoluta de que quando soltasse a voz no meio daqueles galãzinhos suburbanos metidos a cantores todo mundo saberia que ele era de outro mundo musical, muito melhor e mais sofisticado, que falava inglês e tinha morado cinco anos nos States. Foi justamente o que provocou o desastre. A maioria absoluta do auditório da Jovem Guarda era de menininhas provincianas, que vibravam com os rocks e baladas de Jerry Adriani e Wanderley Cardoso e cultuavam os irmãozinhos Erasmo, Wanderléia e Roberto Carlos. Para elas foi um susto quando aquele mulato gordo de cabelos arrepiados e casaco de couro preto apareceu no palco. Ninguém entendeu nada quando ele cantou dois souls em inglês, cheios de gritos e firulas vocais. Para o fã-clube dos cantores galãs foi mesmo música de outro planeta. Poucas e apressadas palmas, mais de alÃvio do que de aprovação, marcaram sua saÃda. No caminho para o camarim, desapontado e furioso, ouviu Roberto anunciando do palco:
“E agora com vocês o meu irmãozinho… o tremendão Erasmo Carlos!â€
Enquanto o auditório explodia em uma gritaria ensurdecedora, Tim chorava no banheiro.
Rap anti-Bussunda
Tim Maia ficou furioso quando soube que a turma do Casseta & Planeta o imitava em cena.
Contrastando com seu espÃrito de comediante e seu humor implacável, Tim não gostava de concorrência na área, principalmente quando era dele que riam. Ficou furioso quando soube que Bussunda o imitava no show “Os Leopoldosâ€, um grande sucesso da trupe de humoristas do Casseta & Planeta no Teatro Ipanema.
Bussunda, de cara preta e peruca Black Power, com um travesseiro na barriga, cantava o hilariante funk machista Mãe é Mãe, imitando Tim: “Mãe é mãe, paca é paca,
mulher é tudo vacaâ€
(…) Tim ameaçou processar a turma por racismo, porque o LP deles se chamava “Preto com Um Buraco no Meioâ€. Mas não ficaria só na esfera judicial: anunciou que seu novo disco se chamaria “Branco com Um Buraco na Testa†e improvisou para os repórteres um furibundo rap anti-Bussunda, com a facilidade que as rimas ofereciam. (…) “Se ele fosse uma Cláudia Raia, uma Luiza Brunet ou uma Xuxa, tudo bem. Mas aquele gordão não dá. Aliás, não sei por que ele bota travesseiro na barriga para me imitar…â€
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